Descrição
Em Pedagogia da relação, lançamento da Cortez Editora, filha de Paulo Freire propõe que a autoridade do professor seja construída na relação com os alunos, e não apenas atribuída pelo cargo
Em boa parte das escolas brasileiras, o professor que admite não saber algo perde prestígio entre os colegas. Em Pedagogia da relação, lançamento da Cortez Editora, a educadora Fátima Freire propõe o caminho inverso. Filha de Paulo Freire, ela leva para o livro a herança do pensamento do pai, para quem educar é um ato de diálogo. Para ela, reconhecer o "não saber" é a postura mais importante de quem ensina, porque a aprendizagem depende menos de métodos e conteúdos do que da relação construída entre quem conduz e quem aprende.
Organizada com as educadoras Sonia Villaboim e Deise Luppi, a obra reúne uma abordagem que Fátima desenvolveu com educadores de diversas regiões do país e que, até então, circulava sobretudo nos grupos de formação conduzidos por ela. O caminho começa pelo professor, e não pela sala de aula: no "eixo pessoa", ele revisita sua história, seus valores e as marcas da própria escolarização. Na infância de muitos docentes, pergunta a autora, era permitido dizer que não se sabia, ou era preciso fingir? Só depois, no "eixo específico", vêm a gestão da turma, os conteúdos e a didática.
É dessa relação que nasce a autoridade. Fátima distingue a autoridade institucional, que o professor recebe ao ser designado para uma turma, daquela que ele precisa conquistar dos alunos ao longo do ano. Ela relata ter acompanhado docentes que passaram um ano letivo inteiro convencidos de que a classe os reconhecia, quando os estudantes não os viam nesse papel. "Quem define se somos ou não o professor de determinado grupo de alunos não somos nós, mas sim os próprios alunos", escreve. Esse reconhecimento depende de um vínculo pedagógico-afetivo, em que o pedagógico pesa mais do que o afetivo: o professor não deve agir como amigo, pai ou mãe do aluno.
Para quem está em sala de aula, o livro traz ferramentas práticas que sustentam esse vínculo no dia a dia. Fátima separa a "fala para" os alunos, que organiza conteúdos e metas, da "fala com" eles, reservada ao diálogo sobre conflitos e emoções. Sugere devolver a pergunta ao estudante em vez de encerrar sua curiosidade e registrar por escrito o que acontece em aula, inclusive o que o professor não soube fazer. Planejar, em sua definição, é criar situações de aprendizagem a partir do que a turma traz. Avaliar é localizar com o aluno o que ele já sabe e o que ainda não sabe, sem caráter punitivo, o que inclui uma autoavaliação do professor.
A mesma lógica orienta a crítica da autora às escolas, em que mercantilização, tecnicismo e padronização tornam o professor substituível e denunciam a falta de vínculo. Para Fátima, a relação ganha ainda mais peso hoje: com a informação disponível em qualquer tela, a escola deixa de fornecer conhecimento e passa a ser um dos poucos espaços em que relações presenciais podem ser cultivadas de forma intencional. O educador português António Nóvoa, autor do prefácio, associa essa importância às rupturas da pandemia de covid-19, que, na visão dele, estão tendo graves consequências sobre toda uma geração de crianças e jovens.
Daí a aposta central do livro. Ao admitir o que não sabe, o professor abre espaço para um vínculo com os alunos, e é esse vínculo que sustenta sua autoridade e torna a aprendizagem possível. Nenhum professor ensina a perguntar sem se permitir perguntar, defende a autora, e a dúvida admitida diante da turma é o caminho para aprender mais. "Só posso saber mais se consigo localizar e reconhecer aquilo que ainda não sei", escreve Fátima Freire. A mudança que Pedagogia da relação propõe, portanto, começa na sala dos professores, antes de chegar à sala de aula.