Descrição
Coletânea de contos africanos conecta novas gerações à ancestralidade
Livro Africontos abre possibilidades de diálogo sobre cultura, identidade e educação afro-brasileira com crianças e jovens
Africontos resgata a tradição oral africana e leva às novas gerações histórias que ajudaram a preservar ancestralidade, identidade e resistência de um povo. Em um momento em que escolas ampliam o trabalho com a história e a cultura afro-brasileira, em consonância com a Lei 10.639/2003, a nova obra da Cortez Editora oferece uma oportunidade de aproximar crianças, famílias e educadores de narrativas que continuam vivas na formação cultural do Brasil e abrem espaço para reflexões sobre pertencimento, diversidade e memória.
A diversidade de olhares dos autores também amplia o alcance da obra. Participam da coletânea o saudoso especialista em literatura infanto-juvenil Celso Sisto; Edna Bueno, escritora que cresceu ouvindo histórias da roça à beira do fogão a lenha; Fabiano Moraes, professor de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo; Glauter Barros, jornalista carioca inspirado pelas narrativas familiares; Lenice Gomes, professora de História do agreste pernambucano; e Sunny, cuja vivência na Nigéria aproxima o leitor da tradição africana contada em sua terra de origem. Juntas, essas diferentes trajetórias revelam como a oralidade segue criando pontes.
Reunindo contos populares da Nigéria, Gana, Angola, Senegal, Quênia, Tanzânia e outras regiões do continente africano, a coletânea apresenta versões recriadas por autores que preservam a força da tradição oral. São histórias que atravessaram o Atlântico, carregando não apenas palavras, mas também saberes, músicas, danças, tecnologias, costumes e modos de viver. A ancestralidade, transmitida de geração em geração, torna-se o fio que conecta a Terra Mãe ao presente.
Ainda hoje, novos contos nos chegam dos lábios úmidos de narradores de África e da seiva embebida dessa terra sagrada que habita os modernos pergaminhos. (Africontos, p. 7)
Mais do que entreter, os textos convidam à reflexão. Em "A mulher teimosa", recontado por Sunny, escritor nascido e criado na Nigéria, a narrativa diferencia persistência de obstinação e revela as consequências de ignorar a sabedoria dos mais velhos. Já "Porque os mosquitos zunem no ouvido da gente" evidencia como uma pequena mentira pode desencadear impactos sobre toda uma comunidade. Valores como solidariedade, humildade, inteligência, respeito à palavra dada e a valorização da vida acima dos bens materiais enriquecem as histórias.
Africontos reafirma que preservar essas narrativas também é manter a memória coletiva. Como lembra um antigo provérbio africano citado na obra, "cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima". O livro responde a essa mensagem com um gesto de permanência: cultivar vivas histórias que resistiram ao tempo, atravessaram mares e continuam a formar leitores, a fortalecer identidades e a ampliar o diálogo sobre as contribuições africanas para a cultura brasileira.